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A indesejada das gentes chegou

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  Há cerca de dois anos, conheci o poema ‘Consoada’, de Manuel Bandeira. Embora escrito há quase um século, serviu perfeitamente para o momento que uma amiga vivenciava, uma inesperada enfermidade.   Com o dom da poesia, de tornar sensível o sentido do mundo e das experiências que nos moldam, aqueles versos marcaram-me, tanto pela riqueza da sua construção, como pela elegância com a qual minha amiga os recitou. Para a semiótica, uma corrente de estudos linguísticos originada na França e que tem no Brasil pesquisadores como Luiz Fiorin, Diana Barros, Lúcia Teixeira e Luiza Silva, esta última tocantinense por adoção, o acontecimento pode ser entendido como o que é da ordem do inesperado e do impactante. Assim, o que nos impacta, de acontecimento, tende a tornar-se memória. Ao escrever sobre Memórias da Guerrilha, a professora Luiza Silva nos explica de forma bem didática esse rico campo dos estudos semióticos: “   A memória é sempre “imperfeita”, no sentido de sua...

Palavras, apenas!

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Texto escrito em dezembro de 2021 O fim de ano foi bastante movimentado para a educação pública em todo o país. Muitos pronunciamentos de governantes anunciando pagamento extra aos trabalhadores que dedicam seu ofício à educação das crianças e jovens de escolas estaduais e municipais. Uma surpresa, dizem, que com muito esforço e resultado da austeridade das gestões, chegou aos trabalhadores como presente do bom velhinho. Décimo quarto salário, abono especial, muitos foram as nomenclaturas utilizadas para anunciar as boas novas nos vídeos institucionais roteirizados especialmente para que as figuras estrelassem na mídia como autores da medida tão populista.  Dinheiro extra será sempre bem-vindo. O que não podemos aceitar é o discurso esvaziado que as assessorias de comunicação nos obrigam a testemunhar. Todas as palavras selecionadas milimetricamente para os tais pronunciamentos têm um único objetivo, desviar o foco dos trabalhadores da verdadeira origem dos valores recebidos em pag...

Muito prazer! Sou a biblioteca.

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                 Mais uma quinta-feira chuvosa nesse despontar de novembro. Mais uma aula de leitura com a galerinha do sexto ano. Mais uma tentativa de ajudar uma dúzia de meninas e meninos a superarem o déficit de aprendizagem que a pandemia trouxe a todos. Nos últimos três meses, já fizemos escuta de narrativas, leitura compartilhada de textos enigmáticos, brincadeira da forca, leitura e ditado de palavras com sílabas complexas. Mas ainda não havia conseguido ver nenhum daqueles olhos cheios de vida brilharem. “Queremos aulas diferentes”, disseram à orientação na escuta do conselho de classe. Mas como ser diferente diante da missão de ‘ensinar a ler e escrever’ em tempo recorde? Como proporcionar algo novo e legal para pré-adolescentes numa escola pública rural com parcos recursos? Em casa, olhando a estante, pensei em levar alguns livros da coleção de Minecraft para um self servisse de leitura, mas logo desisti. Embora seja alg...

Sobre o poder da representatividade

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 Texto escrito no início de agosto. Tenho de forma insistente usado as redes sociais e alguns veículos de comunicação para expressar minha indignação enquanto cidadã tocantinense pela histórica ausência do olhar governamental ao extremo norte do estado. Em meio às cobranças e críticas que tenho tecido, de forma justa, dessa vez senti a necessidade de escrever sobre alguns fatos que também têm chamado minha atenção enquanto servidora pública e filha dessa terra tão sofrida. Hoje quero falar sobre o poder da representatividade. Palavra muito utilizada nas discussões de cunho social, é o substantivo que indica “qualidade de alguém, de um partido, de um grupo ou de um sindicato, cujo embasamento na população faz que ele possa exprimir-se verdadeiramente em seu nome”. Nas minhas andanças costumeiras pelo Bico, percebi que não por acaso, começamos a ter representatividade no cenário político estadual. O que vocês podem questionar já que a região sempre teve pessoas da região ocupando alg...

No Tocantins não há bambu

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  Logo após a retomada das aulas em formato presencial, chegamos ao famoso conselho de classe para encerrar o segundo bimestre. Na acolhida, como é de praxe, participamos de uma dinâmica organizada por uma colega professora aposentada que atualmente desempenha função técnica na rede municipal. Na leitura compartilhada do texto “As dez lições do bambu”, a colega muito empenhada na missão de nos motivar, propôs o exercício reflexivo de nossa postura enquanto avaliador do aluno nesse contexto pandêmico. Resiliência e flexibilidade foram as palavras centrais na dinâmica. Segundo o texto escolhido e as palavras da colega, ao contrário de árvores mais frondosas e de grande porte que têm a rigidez como principal característica, o bambu resiste à tempestades e à neve, justamente por ser flexível e resiliente durante períodos de crise. Assim, o objetivo da mensagem foi de pedir aos professores um olhar atento, cuidadoso, humano, e flexível ao aluno no momento de avaliar sua aprendizagem nes...

Sobre a saga do retorno e a política do Estado mínimo

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  Com o advento da pandemia, passei a escrever sobre algumas situações que incomodam e revoltam quanto ao tratamento do poder público aos problemas já existentes, mas que foram acentuados desde março de 2020.  O abandono à parte norte do Tocantins no quesito efetividade das políticas públicas, em especial a falta de leitos de UTI, a política da sacolinha com a promoção pessoal de algumas figuras nesse contexto de insegurança alimentar e os apelos à comunidade para o respeito às regras de distanciamento, foram algumas das pautas abordadas nesses últimos 17 meses. Entre tantas considerações, o contexto educacional na rede pública foi o tema mais recorrente por aqui. Hoje mais uma vez sinto a necessidade de tocar nesse ponto. A SAGA DO RETORNO À AULAS PRESENCIAIS. Como bem sabem, sou professora da rede estadual e leciono em uma escola na zona rural de Sítio Novo do Tocantins.  Desde a suspensão das aulas presenciais, em março de 2020, e a adoção do ensino remoto, inúmeras fo...

Sobre eufemismos e violência simbólica

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  Dos recursos mobilizados para persuadir o leitor, considero eufemismos e ironias os mais sofisticados do ponto de vista linguístico. Ambas figuras de pensamento, são intencional e milimetricamente escolhidas na construção de um discurso e evidenciam a estratégia persuasiva do enunciador, evidenciando sua perspectiva política e ideológica projetada no enunciado. A primeira, de acordo com o dicionário, sempre é utilizada para suavizar ideia ou expressão com carga negativa, rude ou vulgar. Para tornar mensagens desagradáveis mais toleráveis. Já a segunda, como crítica indireta, busca dizer o contrário do que está posto, podendo ser mobilizada para zombar de determinado contexto, sempre com teor crítico. Ao acessar uma rede social neste finalzinho de maio de 2021, deparei-me com um eufemismo que, pelo absurdo do enunciado, mais pareceu uma ironia. O perfil oficial do Ministério da Saúde, seguido por quase três milhões de brasileiros, traz como manchete positiva, a decisão de...