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Não precisamos de armas, precisamos de livros cultura e paz

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  Geralmente escrevo motivada por indignação, para reivindicar direitos básicos à comunidade que integro. Hoje escrevo impelida pelo espanto, a comoção, a dor. Os direitos que reivindico dessa vez também são básicos, e deveriam ser inerentes à condição humana: a segurança, a educação e a vida. Enquanto lia para meu filho uma história sobre valores como a honestidade e a empatia, na “Fantástica fábrica de chocolates”, deparei-me com mais uma escola servindo de cenário para a barbárie [1] ! Desta vez as vítimas não eram adolescentes que possivelmente teriam cometido bullying. São crianças menores de sete anos que tiveram as vidas interrompidas quando ainda davam seus primeiros passos. Em plena semana que celebra a paixão de Cristo, nossas rotinas são mais uma vez atravessadas pelo noticiário, que chega de forma instantânea pelas redes sociais, dando conta de mais um atentado contra estudantes, professores e a escola. Questões de ordem socioemocional ou psicopatia, não podem ser tomad...

A bibliotecária

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  Na escola onde cursei o ginásio (sim, sou dessa época), tivemos uma biblioteca de fato. Era uma espécie de anexo construído no final do pavilhão de salas, num puxadinho. Era pequena na mesma proporção em que era aconchegante. Não por possuir acervo novo, mobília ou ambiente climatizado. Aquele espaço era sempre receptivo porque nele trabalhava uma senhora tão gentil e convidativa como a literatura. Já na iminência da sonhada aposentadoria, mesmo sem formação acadêmica, aquela professora normalista remanejada de função dava o ar de magia que as bibliotecas necessitam. Ela não ficava parada atrás do balcão de concreto. Antes mesmo de tocar o sinal da entrada ou da saída para o recreio, lá estava ela na porta com um sorriso largo no rosto, como aqueles que as avós esboçam para os netos. Era o convite para que adolescentes, tipicamente desinteressados por leitura, adentrassem o ambiente e fizessem a maior bagunça nas prateleiras, folheando e escolhendo o livro que levariam emprestado...

Patriotismo a lá Dom Quixote

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  Resquícios de uma pandemia com mais de 600 mil vítimas, inflação assombrando os lares de quem tem mais bocas para alimentar do que a renda mensal pode comprar, e muitas tensões em um período eleitoral marcado pela intolerância. Considerada a mais acirrada de toda a história da democracia brasileira, no palco da disputa presidencial de 2022, as propostas que futuro para devolver ao povo otimismo em dias melhores, foi sufocada por um verdadeiro tsunami de agressões pessoais e fake news, cada vez mais absurdas pela ausência total de ética e insistente desrespeito à lei. Passados quase dez dias, o resultado das urnas parece ter aberto um universo paralelo para muitas dezenas de eleitores Brasil afora. Vigílias sob chuva na frente de quarteis invocando o artigo 142 da Constituição Federal, crianças usadas como escudo em protestos, carona no para-choque de caminhão, comemoração da suposta prisão de um ministro da Suprema Corte, orações rogando pela morte do presidente eleito, e ...

A volta dos jogos escolares e a narrativa da meritocracia

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          Após dois anos de hiato, balões, pompons, cartazes e gritos de guerra coloriram as arquibancadas de ginásios escolares Tocantins a fora. Em 2022, os Jogos Estudantis do Tocantins (Jet's), puderam contar com a participação das torcidas em campo, apoiando seus times.           Ver a alegria dos adolescentes, que diante de um confronto se confraternizavam trouxe um misto de sensações. As orações dos atletas antes do jogo, as vibrações positivas dos amigos às margens do retângulo que delimita os limites da quadra, e a expectativa dos professores com convicção de que seus alunos são os melhores podem ilustrar a experiência da última semana.           Esse episódio poderia romantizar a paixão pelo esporte e a certeza de seu fundamental papel na formação da cidadania. Porém, como tenho feito de modo insistente, o que me traz de volta a esta página é o sentimento...

Obsolescência programada em obras públicas?

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  Impulsionado pela Revolução Industrial, o capitalismo tem produzido efeitos diversos no seio social. Com vista direta ao lucro, projetado pela mão invisível do mercado, uma das suas principais características é a geração de riquezas para poucos. Apesar do fomento à evolução de produtos e serviços, com ênfase no desenvolvimento tecnológico, os frutos desse modelo econômico não são tão doces como pensamos. Além da degradação ambiental; divergência entre capital e trabalho; alargamento das desigualdades sociais; e desvirtuação de valores humanos, o incentivo ao consumo em larga escala está entre os detalhes que contribuem para a manutenção do status quo da dinâmica social estratificada.             Todas essas questões geralmente são discutidas em espaços de convivência e formação como organizações da sociedade civil e na escola. Mas, por que continuamos a consumir em demasia se já aprendemos que tal prática não nos benef...

Para não dizer que não falei das flores

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   (Charge de @IlustraGabs) Mais um 8 de março. Mais adjetivos e mimos de toda ordem para romantizar uma das narrativas mais antigas da história da humanidade, o calvário de ser mulher em uma sociedade machista e desigual. Antes mesmo de começarem as homenagens esvaziadas de sentido, o que me levou a escrever estas linhas são dois fatos assistidos nesse início de março: O primeiro deles, de repercussão mundial, é a coisificação das mulheres por um parlamentar paulista que sequer merece ter o nome mencionando nesse texto pelo nível de canalhice que sua conduta apresenta. Digo coisificação porque o fato citado transcende até a noção de objeto com a qual sempre fomos tratadas, seja para a satisfação da lascívia masculina ou para a servidão no lar. Infelizmente, em pleno século XXI, não são raros os casos em que saímos da condição de objeto para sermos tratadas como coisas por aqueles que dependem quase que totalmente de nós para a plena sobrevivência. O segundo fato, be...

A indesejada das gentes chegou

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  Há cerca de dois anos, conheci o poema ‘Consoada’, de Manuel Bandeira. Embora escrito há quase um século, serviu perfeitamente para o momento que uma amiga vivenciava, uma inesperada enfermidade.   Com o dom da poesia, de tornar sensível o sentido do mundo e das experiências que nos moldam, aqueles versos marcaram-me, tanto pela riqueza da sua construção, como pela elegância com a qual minha amiga os recitou. Para a semiótica, uma corrente de estudos linguísticos originada na França e que tem no Brasil pesquisadores como Luiz Fiorin, Diana Barros, Lúcia Teixeira e Luiza Silva, esta última tocantinense por adoção, o acontecimento pode ser entendido como o que é da ordem do inesperado e do impactante. Assim, o que nos impacta, de acontecimento, tende a tornar-se memória. Ao escrever sobre Memórias da Guerrilha, a professora Luiza Silva nos explica de forma bem didática esse rico campo dos estudos semióticos: “   A memória é sempre “imperfeita”, no sentido de sua...